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Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

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O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

O fino gelo da educação.pt

Como pai de 3, a educação e o ensino são temas mais que queridos: obrigatórios.

Tive a sorte de ter vaga na CEBE para o meu mais velho. Ele próprio se encarregou de inscrever as irmãs, com uma proficiência espantosa para um cachopo de 4 e 7 anitos, respectivamente aquando da chegada da mana do meio e da caçula. Um ensino em que se cultivam os afectos, a proximidade, a criatividade e se respeita o espaço e tempo que cada um necessita para se desenvolver. E mesmo assim: os programas foram diferentes para cada um deles, mudando ao sabor do vento Ministerial que, como se sabe, é o mais terrível dos ventos que assola o nosso Portugal! No ensino do Inglês variou de facultativo até obrigatório nos 4 anos para voltar dois passitos atrás... Até que, acabado o quarto ano, é necessário levá-los para uma "escola de crescidos".

E os dois que já deixaram o ninho da CEBE e voaram pelo 2º Ciclo, encontrando-se no meio do 3º Ciclo e quase no fim do secundário, já têm muitas histórias para contar... Professores excelentes, fantásticos, entusiasmantes! E outros que simplesmente não deviam estar à frente de uma turma. Já dizia uma sábia amiga que "Padre, médico e professor não são profissões, são vocações".

O problema é que o sistema é cego, surdo e mudo, contando com a inacção de muitos ministros e a benção dos múltiplos sindicatos e da todo poderosa FENPROF, para prejuízo de todos: alunos, pais, professores e, no final, do futuro deste país. Vocação? 9 Anos, 4 Meses e 2 Dias! Os bons, excelentes, alguns mesmo excepcionais professores serem recompensados? 9, 4, 2! Os maus professores serem afastados? 9, 4, 2! Professores que não estão em condições de aturar 28 marmanjos na puberdade, seja porque estão doentes, incapacitados temporária ou definitivamente, ou porque têm que se levantar de madrugada e fazer 120km para cada lado para vir trabalhar (e ficado com o pior horário porque não pertencem ao Quadro da Escola e são os últimos a escolher...) mas que são obrigados a leccionar pelo Ministério porque é só para isso que podem servir (ERRO! Há tanta coisa útil que um professor pode fazer numa escola sem ser dar aulas, desde tutorias individuais, aulas de recuperação para pequenos grupos até ateliers avançados, clubes de línguas, matemática, robótica...)? Já sabemos a resposta...

O que interessa é o tempo de serviço! Sim, talvez para os 23 sindicatos (sim, vinte e três) e para os muitos sindicalistas, alguns há tempo demais (não deveria ter um limite?) longe das salas de aula, seja o mais importante. Para pais e alunos, nem por isso. Não é o tempo que faz um professor ser melhor, ainda que às vezes ajude. Se esta luta serve para alguma coisa é para mostrar a completa estupidez que é ter como critério (quase) exclusivo de progressão na carreira o tempo. A desculpa que qualquer outro critério é subjectivo não tem desculpa, de tão esfarrapada que é. É como vestir um sobretudo para ir para a praia em Agosto: é melhor que ir nu mas não é adequado. Dá trabalho procurar uma solução adequada (se bem que já há quem esteja à nossa frente e nos deixe copiar, o que, neste caso, nem é ser cábula...) mas é muito melhor do que ficar agarrado ao obviamente errado só porque é o que está instituído há muito... tempo. Já nem os militares funcionam assim. Mas o nosso Estado continua a viver no Séc. XVIII. Com e-governance, e-facturas, e-merdas para fazer a interface com o utilizador/contribuinte mas "por dentro" com uma organização e procedimentos do mais antiquado que pode haver.

Não é apenas a progressão na carreira: a autonomia cada vez mais reduzida das escolas, os mega-agrupamentos que só serviram para reduzir pessoal custos no curto prazo mas que custam fortunas durante décadas... A minha filha do meio teve este ano um professor de Geografia substituto que se revelou excelente, compensando os quase dois meses sem professor. No entanto a escola não o pode reter, ainda que a pessoa que ele substituiu vá, infelizmente, permanecer de baixa. O pobre vai ter que mudar outra vez, adaptar-se outra vez, e, caso não desmotive entretanto, ser excepcional outra vez sem ter outro retorno que não o orgulho e a alegria de ver alunos interessados e com uma aprendizagem a condizer! Sorte dos garotos que o apanharem para o ano.

Esta mudança é mais que necessária, urgente. Mas é necessária coragem para enfrentar tudo e todos os interesses instalados. Não dá votos e até poderá tirar alguns mas é absolutamente necessária para que deixemos de ter alunos do Séc. XXI com professores do Séc. XX numa escola do Séc. XIX!

WP_20180521_004.jpg  Roger Waters@Altice Arena, 21-05-2018

 

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