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Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

Irritações da semana

Esta semana começou irritante e acabou ainda pior...

O meu filho pediu-me para ir à Luz ver um jogo. Há tanto tempo que ele não queria fazer nada com o chato do paizinho que fui a correr comprar os bilhetes. O Benfica deu 10-0 num jogo com momentos fantásticos e golos para todos os gostos. Fez-se história: é preciso recuar 55 anos para outro resultado assim na 1ª Liga/Divisão, da autoria, está claro, do Benfica. E não um Benfica qualquer mas o que tinha Eusébio (6 golos nesse jogo), Coluna, Simões, Torres (2), José Augusto, Yaúca (2)... Irritou-me bastante ver tanta gente desdenhar do gordo resultado e insinuar uma estranha falta de empenho dos jogadores do Nacional... Por certo não viram a incrível defesa do Vlachodimos, celebrada na Luz como se fosse mais um golo, ou estariam mais caladitos. Os rapazes bem tentaram mas não tiveram hipótese alguma...

Irrita-me não poder parar o carro em lado nenhum, mesmo longe do centro de Lisboa, sem ter que pagar (e bastante). Dizem que é para ordenar o estacionamento: TRETA! Dizem que é para evitar mais carros no centro: BALELAS! Digam o que disserem, irrita-me bastante porque sinto que andam a (tentar) enganar o povo contribuinte, enquanto se deslocam nos seus carros de serviço (à borla para eles, pagos por todos nós) que estacionam na Praça do Município (de borla, claro).

Irrita-me que tenham rebentado uma quantidade enorme de ruas de Lisboa para fazer ciclovias, fazendo com que o trânsito que fluía bem seja agora uma dor de cabeça (Av. Colégio Militar, por exemplo) e que depois tenham cedido ao loby do ciclismo/cicloturismo e eles possam circular na estrada e deixar a ciclovia às moscas... Não pagam IUC (acho bem), não cumprem o código da estrada quando lhes convém (acho mal), não têm seguro (acho muito mal) mas têm todo o direito de ocupar a via e empatar o tráfego quando têm uma pista exclusiva à disposição...

Irrita-me que existam cidadãos de primeira e de segunda no nosso país. Enfermeiros que trabalham lado a lado, têm a mesma qualificação e experiência, mas têm um contrato diferente com salário, obviamente, distinto... E outros que não progridem na carreira há 10 ou mais anos, pais e mães de família que ganham menos agora do que já ganharam apesar de serem agora mais qualificados... Irrita-me que a discussão se centre no meio de financiamento da greve e na forma como a mesma é feita e não nos problemas reais. Irrita-me ainda mais que do lado do Ministério e do lado dos Sindicatos se "atire gasolina para as chamas" em vez de as tentar apagar, deixando para segundo plano a razão de existirem: tratarem de quem trata de todos nós.

Irrita-me que os miúdos tenham vindo para casa sem aulas quando até tinham teste. Irrita-me ainda mais as ameaças de não dar notas e/ou aulas ao 12º ano. Já não tenho pachorra para os 23 sindicatos de professores que insistem numa só tecla a do 9-4-2! Pior que disco riscado, é mente atrofiada. Todos, vou repetir, TODOS os Portugueses levaram no lombo entre 2009 e 2019 (sim, ainda não acabou). Todos vimos os nossos rendimentos encolher e os impostos subir. Por que razão se consideram superiores os professores de modo a recuperarem o que mais ninguém recuperou? E como se atrevem a, no século XXI, querer manter uma carreira cuja progressão assenta fundamentalmente no tempo de serviço e não na competência/qualidade/resultados? Seria interessante saber quanto iriam aumentar as contribuições sindicais se o governo aceitasse essa reivindicação...

Um bom fim de semana para todos, mesmo para os que se portaram mal 

 

O fino gelo da educação.pt

Como pai de 3, a educação e o ensino são temas mais que queridos: obrigatórios.

Tive a sorte de ter vaga na CEBE para o meu mais velho. Ele próprio se encarregou de inscrever as irmãs, com uma proficiência espantosa para um cachopo de 4 e 7 anitos, respectivamente aquando da chegada da mana do meio e da caçula. Um ensino em que se cultivam os afectos, a proximidade, a criatividade e se respeita o espaço e tempo que cada um necessita para se desenvolver. E mesmo assim: os programas foram diferentes para cada um deles, mudando ao sabor do vento Ministerial que, como se sabe, é o mais terrível dos ventos que assola o nosso Portugal! No ensino do Inglês variou de facultativo até obrigatório nos 4 anos para voltar dois passitos atrás... Até que, acabado o quarto ano, é necessário levá-los para uma "escola de crescidos".

E os dois que já deixaram o ninho da CEBE e voaram pelo 2º Ciclo, encontrando-se no meio do 3º Ciclo e quase no fim do secundário, já têm muitas histórias para contar... Professores excelentes, fantásticos, entusiasmantes! E outros que simplesmente não deviam estar à frente de uma turma. Já dizia uma sábia amiga que "Padre, médico e professor não são profissões, são vocações".

O problema é que o sistema é cego, surdo e mudo, contando com a inacção de muitos ministros e a benção dos múltiplos sindicatos e da todo poderosa FENPROF, para prejuízo de todos: alunos, pais, professores e, no final, do futuro deste país. Vocação? 9 Anos, 4 Meses e 2 Dias! Os bons, excelentes, alguns mesmo excepcionais professores serem recompensados? 9, 4, 2! Os maus professores serem afastados? 9, 4, 2! Professores que não estão em condições de aturar 28 marmanjos na puberdade, seja porque estão doentes, incapacitados temporária ou definitivamente, ou porque têm que se levantar de madrugada e fazer 120km para cada lado para vir trabalhar (e ficado com o pior horário porque não pertencem ao Quadro da Escola e são os últimos a escolher...) mas que são obrigados a leccionar pelo Ministério porque é só para isso que podem servir (ERRO! Há tanta coisa útil que um professor pode fazer numa escola sem ser dar aulas, desde tutorias individuais, aulas de recuperação para pequenos grupos até ateliers avançados, clubes de línguas, matemática, robótica...)? Já sabemos a resposta...

O que interessa é o tempo de serviço! Sim, talvez para os 23 sindicatos (sim, vinte e três) e para os muitos sindicalistas, alguns há tempo demais (não deveria ter um limite?) longe das salas de aula, seja o mais importante. Para pais e alunos, nem por isso. Não é o tempo que faz um professor ser melhor, ainda que às vezes ajude. Se esta luta serve para alguma coisa é para mostrar a completa estupidez que é ter como critério (quase) exclusivo de progressão na carreira o tempo. A desculpa que qualquer outro critério é subjectivo não tem desculpa, de tão esfarrapada que é. É como vestir um sobretudo para ir para a praia em Agosto: é melhor que ir nu mas não é adequado. Dá trabalho procurar uma solução adequada (se bem que já há quem esteja à nossa frente e nos deixe copiar, o que, neste caso, nem é ser cábula...) mas é muito melhor do que ficar agarrado ao obviamente errado só porque é o que está instituído há muito... tempo. Já nem os militares funcionam assim. Mas o nosso Estado continua a viver no Séc. XVIII. Com e-governance, e-facturas, e-merdas para fazer a interface com o utilizador/contribuinte mas "por dentro" com uma organização e procedimentos do mais antiquado que pode haver.

Não é apenas a progressão na carreira: a autonomia cada vez mais reduzida das escolas, os mega-agrupamentos que só serviram para reduzir pessoal custos no curto prazo mas que custam fortunas durante décadas... A minha filha do meio teve este ano um professor de Geografia substituto que se revelou excelente, compensando os quase dois meses sem professor. No entanto a escola não o pode reter, ainda que a pessoa que ele substituiu vá, infelizmente, permanecer de baixa. O pobre vai ter que mudar outra vez, adaptar-se outra vez, e, caso não desmotive entretanto, ser excepcional outra vez sem ter outro retorno que não o orgulho e a alegria de ver alunos interessados e com uma aprendizagem a condizer! Sorte dos garotos que o apanharem para o ano.

Esta mudança é mais que necessária, urgente. Mas é necessária coragem para enfrentar tudo e todos os interesses instalados. Não dá votos e até poderá tirar alguns mas é absolutamente necessária para que deixemos de ter alunos do Séc. XXI com professores do Séc. XX numa escola do Séc. XIX!

WP_20180521_004.jpg  Roger Waters@Altice Arena, 21-05-2018

 

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