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Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

O quebradiço gelo dos Custos de Contexto

Há umas semanas, à saída de um bom filme, dizia-me um jovem amigo, um dos famosos millennials: "em Portugal, o contexto condiciona em mais de metade a probabilidade de sucesso". Isto vinha a propósito do seu irmão mais novo ter sido "importado" pela sede de um grupo de distribuição alimentar Alemão. Na altura disse-lhe que a sua avaliação pecava apenas por defeito. A famosa "fuga de cérebros" não vai ser estancada por qualquer tipo de "benefício fiscal". O que nós precisamos são de mudanças mais estruturantes. Não é erro. Estruturantes porque necessitamos de mudar criando estruturas não de alterar as que temos, tão frágeis e corroídas que já não aguentam remendos.

O que nos falta então? Como fazer para que os Portugueses, que chegam a CEOs de Bancos Ingleses centenários (Horta Osório, Lloyds) ou de grandes fabricantes de automóveis Europeus (Carlos Tavares, Grupo PSA: Peugeot-Citroën-Opel), tenham sucesso também cá?

 

Organização: Continuamos na idade média, com a nobreza substituída pela classe política e todos os que gravitam à sua volta, um clero mais humilde e menos influente (se bem que há outros "cultos" cheios de fiéis seguidores...), a burguesia (pequenos empresários, comerciantes) e o povo com voto mas pouca matéria. Para passarmos do séc. XV (hoje estou um querido) directamente para o XXI precisávamos de perder a mania de tentar entortar o campo onde vamos jogar. O corporativismo atinge entre nós níveis de fazer corar o próprio Duce. Não há associação industrial, comercial, profissional, sindical, etc. e tal que não tente influenciar as decisões do poder político. E nem me falem de Reguladores, normalmente presididos por alguém vindo directamente dos "regulados" ou do partido político do Governo da altura, uma singularidade lusa com resultados fantásticos... Um país moderno tem de começar por ser equitativo, equilibrado.

 

Estabilidade e Simplicidade: Não governativa, algo muito sobrevalorizado, mas sim legislativa e fiscal. Tentem explicar a um Sueco ou a um Austríaco as mudanças na tributação sobre as famílias e as empresas dos últimos 10 anos e o sujeito tem um colapso. Eles pagam imenso (50% dos rendimentos!) mas é assim há imenso tempo e assim será, pois ainda não encontraram melhor que o Estado Social e isso custa uns dinheiritos valentes. Depois as leis não podem mudar ao sabor dos interesses que conseguirem ser mais fortes e persuasivos (yep, hoje estou mesmo um ) num dado momento. E também não deve ser preciso ter 3 Post-Doc em Direito Administrativo para ler 2 parágrafos. Leis simples mas sem aqueles já tradicionais buracos, feitos por uma espécie de ratos que tem amigos em determinados "sectores da sociedade"...

 

Planeamento e Ordenamento: Este tipo de pensamento estratégico (que por acaso acho fascinante) é o que devia ocupar mais de metade do tempo dos Governos da República. Um Plano! Saber o que queremos ser, ter, onde, com que limitações e impactos positivos e negativos. Isto implicaria um consenso alargado, talvez 2/3 da Assembleia, porque seria para ser implementado ao longo das próximas décadas. Claro que seguindo o círculo/ciclo do Sr. Deming: Planear-Executar-Verificar-Agir/Ajustar (em inglês, PDCA: Plan-Do-Check-Act) pois o mais provável é termos que ir ajustando e corrigindo erros. Depois sim, distribuir o dinheiro dos impostos para concretizar o Plano, garantir que o mesmo é cumprido rigorosamente, monitorizar os progressos e os resultados e corrigir o que for necessário. IVA das touradas? Eu quero saber é como vamos atrair fábricas de baterias e de células de combustível para a mobilidade do futuro! Onde vamos querer que elas fiquem, e preparar as infra-estruturas necessárias.

 

Investigação e Desenvolvimento: A fracção do orçamento anual que as nossas empresas dedicam à I&D é ridícula. Depois enche-se a boca com a "inovação". Normalmente é uma inovação importada ou apenas uma forma diferente de fazer a mesma coisa, nem por isso mais eficiente. Inovação não é comprar uma máquina nova, é inventar uma que não existe! As Universidades vivem fechadas sobre si próprias e são pouquíssimos os projectos conjuntos Universidade-Empresas. Os poucos que foram feitos foram normalmente bem sucedidos mas a nossa indústria devia ser mais agressiva nesse aspecto e ir buscar às Escolas a Tecnologia e o saber que lhe faz falta. É que os nossos concorrentes são, e até sabem vir cá buscar os recursos que formamos... É preciso deitar muito dinheiro por cima deste problema, porque investigar e desenvolver sai "caro" mas esse é apenas um detalhe. O problema é que a generalidade dos nossos empresários (em boa verdade toda a nossa sociedade) está focada apenas no curto prazo e a I&D tem resultados no longo e muito longo prazo. Veja-se o exemplo da Bial que, depois de investir muitos milhares de € durante anos a fio, conseguiu introduzir no mercado 1 (um) medicamento inovador. O retorno desta estratégia de investimento é realmente mais demorado mas tem a enorme vantagem de ser muito mais resiliente, não só pelo maior valor acrescentado, mas também pela dinâmica de verdadeira inovação que cria. É o mesmo que dizer que não vamos esperar tantos anos pelo próximo medicamento totalmente desenvolvido pela Bial.

 

Qualidade da Gestão: Os nossos Gestores, salvo honrosas excepções, ainda vivem no tempo do condicionamento industrial. É confrangedor o número de empresas em que a gestão se limita à tesouraria, aos stocks e encomendas e onde, à falta de investimento em I&D se junta o desconhecimento ou a não implementação de ferramentas que já têm 70 anos de aplicação um pouco por todo o mundo... Em demasiadas fábricas termos como Kanban, Kaizen, 5S ou Lean Manufacturing são confundidos com nomes de doenças ou marcas de shampoo. Ou então são olimpicamente ignorados porque são coisas que dão muito trabalho e demoram muito até dar resultados visíveis. Puxando a brasa à minha garoupa (cada um escolhe o peixe que quer, tá?), a Segurança Industrial (Segurança e Saúde no Trabalho, Segurança contra Incêndio, etc.) é a última coisa que vem à cabeça da maior parte e, mesmo assim, é visto como um custo e não um investimento na sustentabilidade do negócio.

 

Há alguns anos andava por aí uma T-shirt com a frase "Portuguese do it better". Sabemos que é preciso que tenham condições para tal e isso implica mudar corajosamente e definitivamente muitas estruturas, que não suportam o peso de uma geração tão promissora.

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