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Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

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O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

O fino gelo da meritocracia.pt

Em Portugal, meritocracia é pouco mais que um chavão.

Para mim, homem da lógica e matemática, esta talvez tenha sido uma das mais duras lições da vida. Afinal, ser bom, dos melhores, não era o caminho garantido para o sucesso profissional. Quando ouvi pela primeira vez o ditado "vale mais cair em graça que ser engraçado" fiquei apenas enfadado. Que parvoíce! Como é que ser bem visto por alguém pode valer mais que ser competente? Estão a chamar mentirosos a quem? Aos meus pais?! Aos meus professores?! Onde é que já se viu isso? Em Portugal.

Pois, é neste pacífico cantinho da Europa, com a melhor comida do mundo e um povo fantástico, quem pode escolher com quem "vai a jogo" prefere os conhecidos aos conhecimentos. E meus amigos, este é um dos maiores contribuintes para o atraso de Portugal e para a falta de "músculo" da nossa economia  (há mais uns quantos que ficam para outros posts...). É fonte de desigualdade, gera desmotivação, reduz a produtividade (duplamente!), tolda-nos a competitividade e custa-nos imenso dinheiro em impostos, bens e serviços mais caros e de pior qualidade.

Por cá ficou célebre a frase do ilustre Alumni do IST, Engº António Guterres "No jobs for the boys". Boa intenção mas completamente trucidada pelo "aparelho" do PS que tratou de manter uma tradição de longa data e trocar gente em toda a Administração Pública de acordo com a cor do cartão de militante, independentemente da competência. Não fosse a "cunha" a maior instituição do país: desde livrar uns moços da guerra do ultramar (contado pelo meu pai, que para lá partiu vendo-os ficar...), para entrar para uma empresa, o grupo de escuteiros ou na escola que nunca tem vaga.

Mas para que o Estado não fique só, nas empresas privadas, acontece geralmente o mesmo. Promove-se a competência e premeia-se o melhor desempenho por coincidência e não em verdadeira consciência. Há muitas excepções de gente excelente que é devidamente reconhecida e valorizada. Mas são infelizmente demasiados os casos em que conta mais o "networking", o "marketing pessoal" e outros conceitos abstractos com uma tradução popular bem portuguesa: cunha. Temos mesmo dificuldade em separar o Cognac do trabalho, as amizades das relações profissionais. Os exemplos vêm de cima: políticos cujo primeiro emprego é Administrador de uma empresa (de um amigo), ex-ministros, secretários de estado e directores gerais que passam para a Direcção de empresas que tutelavam (e vice-versa), nomeados pelos administradores representando accionistas de referência (bancos, o próprio estado) com interesses no sector, em negócios pouco claros e favores muito evidentes, com as consequências que todos conhecemos e ainda estamos a pagar (BES, PT, EDP, ANA, etc.).

Não admira pois que tantos jovens qualificados tenham abandonado o país em busca de trabalho e melhores condições de vida. E são extremamente apreciados quando são efectivamente bons profissionais. Apreciados pela sua competência, reconhecidos e devidamente recompensados! A maior parte deles não vai voltar. Pelo menos enquanto a alternativa seja voltar à aparente incapacidade nacional de valorizar o talento.

Jogando sempre à defesa, escolhendo os amigos ou aqueles a quem se deve um favor, só por acaso se tem as pessoas certas nos lugares certos e muito dificilmente se consegue ter uma equipa competitiva e resiliente. Este é um dos factores a contribuir para a fraca capacidade de internacionalização das nossas empresas, incapazes de competir com quem leva a meritocracia a sério. Pior ainda quando temos um mercado pequeno e com fraco poder de compra, o que significa que estar limitado ao nosso mercado é estar condenado à partida a ser pequeno e vulnerável a ataques de fora. É certo que exportamos muitos bens e serviços mas temos muito pouca presença de empresas nacionais noutras latitudes. No entanto, todos conhecemos nomes de grandes empresas que começaram em pequenos países mas que se espalharam pelo mundo como a Carlsberg (Dinamarca), H&M, Securitas, IKEA e Spotify (Suécia), AB InBev (dona da Stella Artois e da Budweiser, Bélgica) para nomear apenas alguns casos de países com população/dimensão semelhante à nossa e sem recursos naturais significativos.

Valorizar o talento não é apenas pagar para o ter ao seu serviço. Valorizar o talento é dar condições para que o mesmo se revele e desenvolva. É promover a criatividade e a imaginação que são o pai e a mãe da inovação. É apoiar, suportar e encorajar a tentar sem medo de falhar pois errando também se aprende. Mas nem todos os líderes são como o capitão da Selecção Portuguesa de Futebol: nem todos têm a coragem de dizer a um elemento da equipa "tu bates (fazes) bem, se falhares que se fo... Vai!". Um símbolo do talento, que não conhece fronteiras e é reconhecido até pelos adversários, que o aplaudem de pé(!) e demonstra o que é liderança. O outro "bateu" realmente bem e, dois jogos mais tarde, CR7 levantou o "caneco"!

 

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