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Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

Thin ice

O gelo fino da vida moderna pode quebrar a qualquer momento quando o pisamos... Um blog de opiniões, convicções e algumas contradições...

Irritações da semana

Esta semana começou irritante e acabou ainda pior...

O meu filho pediu-me para ir à Luz ver um jogo. Há tanto tempo que ele não queria fazer nada com o chato do paizinho que fui a correr comprar os bilhetes. O Benfica deu 10-0 num jogo com momentos fantásticos e golos para todos os gostos. Fez-se história: é preciso recuar 55 anos para outro resultado assim na 1ª Liga/Divisão, da autoria, está claro, do Benfica. E não um Benfica qualquer mas o que tinha Eusébio (6 golos nesse jogo), Coluna, Simões, Torres (2), José Augusto, Yaúca (2)... Irritou-me bastante ver tanta gente desdenhar do gordo resultado e insinuar uma estranha falta de empenho dos jogadores do Nacional... Por certo não viram a incrível defesa do Vlachodimos, celebrada na Luz como se fosse mais um golo, ou estariam mais caladitos. Os rapazes bem tentaram mas não tiveram hipótese alguma...

Irrita-me não poder parar o carro em lado nenhum, mesmo longe do centro de Lisboa, sem ter que pagar (e bastante). Dizem que é para ordenar o estacionamento: TRETA! Dizem que é para evitar mais carros no centro: BALELAS! Digam o que disserem, irrita-me bastante porque sinto que andam a (tentar) enganar o povo contribuinte, enquanto se deslocam nos seus carros de serviço (à borla para eles, pagos por todos nós) que estacionam na Praça do Município (de borla, claro).

Irrita-me que tenham rebentado uma quantidade enorme de ruas de Lisboa para fazer ciclovias, fazendo com que o trânsito que fluía bem seja agora uma dor de cabeça (Av. Colégio Militar, por exemplo) e que depois tenham cedido ao loby do ciclismo/cicloturismo e eles possam circular na estrada e deixar a ciclovia às moscas... Não pagam IUC (acho bem), não cumprem o código da estrada quando lhes convém (acho mal), não têm seguro (acho muito mal) mas têm todo o direito de ocupar a via e empatar o tráfego quando têm uma pista exclusiva à disposição...

Irrita-me que existam cidadãos de primeira e de segunda no nosso país. Enfermeiros que trabalham lado a lado, têm a mesma qualificação e experiência, mas têm um contrato diferente com salário, obviamente, distinto... E outros que não progridem na carreira há 10 ou mais anos, pais e mães de família que ganham menos agora do que já ganharam apesar de serem agora mais qualificados... Irrita-me que a discussão se centre no meio de financiamento da greve e na forma como a mesma é feita e não nos problemas reais. Irrita-me ainda mais que do lado do Ministério e do lado dos Sindicatos se "atire gasolina para as chamas" em vez de as tentar apagar, deixando para segundo plano a razão de existirem: tratarem de quem trata de todos nós.

Irrita-me que os miúdos tenham vindo para casa sem aulas quando até tinham teste. Irrita-me ainda mais as ameaças de não dar notas e/ou aulas ao 12º ano. Já não tenho pachorra para os 23 sindicatos de professores que insistem numa só tecla a do 9-4-2! Pior que disco riscado, é mente atrofiada. Todos, vou repetir, TODOS os Portugueses levaram no lombo entre 2009 e 2019 (sim, ainda não acabou). Todos vimos os nossos rendimentos encolher e os impostos subir. Por que razão se consideram superiores os professores de modo a recuperarem o que mais ninguém recuperou? E como se atrevem a, no século XXI, querer manter uma carreira cuja progressão assenta fundamentalmente no tempo de serviço e não na competência/qualidade/resultados? Seria interessante saber quanto iriam aumentar as contribuições sindicais se o governo aceitasse essa reivindicação...

Um bom fim de semana para todos, mesmo para os que se portaram mal 

 

O quebradiço gelo dos Custos de Contexto

Há umas semanas, à saída de um bom filme, dizia-me um jovem amigo, um dos famosos millennials: "em Portugal, o contexto condiciona em mais de metade a probabilidade de sucesso". Isto vinha a propósito do seu irmão mais novo ter sido "importado" pela sede de um grupo de distribuição alimentar Alemão. Na altura disse-lhe que a sua avaliação pecava apenas por defeito. A famosa "fuga de cérebros" não vai ser estancada por qualquer tipo de "benefício fiscal". O que nós precisamos são de mudanças mais estruturantes. Não é erro. Estruturantes porque necessitamos de mudar criando estruturas não de alterar as que temos, tão frágeis e corroídas que já não aguentam remendos.

O que nos falta então? Como fazer para que os Portugueses, que chegam a CEOs de Bancos Ingleses centenários (Horta Osório, Lloyds) ou de grandes fabricantes de automóveis Europeus (Carlos Tavares, Grupo PSA: Peugeot-Citroën-Opel), tenham sucesso também cá?

 

Organização: Continuamos na idade média, com a nobreza substituída pela classe política e todos os que gravitam à sua volta, um clero mais humilde e menos influente (se bem que há outros "cultos" cheios de fiéis seguidores...), a burguesia (pequenos empresários, comerciantes) e o povo com voto mas pouca matéria. Para passarmos do séc. XV (hoje estou um querido) directamente para o XXI precisávamos de perder a mania de tentar entortar o campo onde vamos jogar. O corporativismo atinge entre nós níveis de fazer corar o próprio Duce. Não há associação industrial, comercial, profissional, sindical, etc. e tal que não tente influenciar as decisões do poder político. E nem me falem de Reguladores, normalmente presididos por alguém vindo directamente dos "regulados" ou do partido político do Governo da altura, uma singularidade lusa com resultados fantásticos... Um país moderno tem de começar por ser equitativo, equilibrado.

 

Estabilidade e Simplicidade: Não governativa, algo muito sobrevalorizado, mas sim legislativa e fiscal. Tentem explicar a um Sueco ou a um Austríaco as mudanças na tributação sobre as famílias e as empresas dos últimos 10 anos e o sujeito tem um colapso. Eles pagam imenso (50% dos rendimentos!) mas é assim há imenso tempo e assim será, pois ainda não encontraram melhor que o Estado Social e isso custa uns dinheiritos valentes. Depois as leis não podem mudar ao sabor dos interesses que conseguirem ser mais fortes e persuasivos (yep, hoje estou mesmo um ) num dado momento. E também não deve ser preciso ter 3 Post-Doc em Direito Administrativo para ler 2 parágrafos. Leis simples mas sem aqueles já tradicionais buracos, feitos por uma espécie de ratos que tem amigos em determinados "sectores da sociedade"...

 

Planeamento e Ordenamento: Este tipo de pensamento estratégico (que por acaso acho fascinante) é o que devia ocupar mais de metade do tempo dos Governos da República. Um Plano! Saber o que queremos ser, ter, onde, com que limitações e impactos positivos e negativos. Isto implicaria um consenso alargado, talvez 2/3 da Assembleia, porque seria para ser implementado ao longo das próximas décadas. Claro que seguindo o círculo/ciclo do Sr. Deming: Planear-Executar-Verificar-Agir/Ajustar (em inglês, PDCA: Plan-Do-Check-Act) pois o mais provável é termos que ir ajustando e corrigindo erros. Depois sim, distribuir o dinheiro dos impostos para concretizar o Plano, garantir que o mesmo é cumprido rigorosamente, monitorizar os progressos e os resultados e corrigir o que for necessário. IVA das touradas? Eu quero saber é como vamos atrair fábricas de baterias e de células de combustível para a mobilidade do futuro! Onde vamos querer que elas fiquem, e preparar as infra-estruturas necessárias.

 

Investigação e Desenvolvimento: A fracção do orçamento anual que as nossas empresas dedicam à I&D é ridícula. Depois enche-se a boca com a "inovação". Normalmente é uma inovação importada ou apenas uma forma diferente de fazer a mesma coisa, nem por isso mais eficiente. Inovação não é comprar uma máquina nova, é inventar uma que não existe! As Universidades vivem fechadas sobre si próprias e são pouquíssimos os projectos conjuntos Universidade-Empresas. Os poucos que foram feitos foram normalmente bem sucedidos mas a nossa indústria devia ser mais agressiva nesse aspecto e ir buscar às Escolas a Tecnologia e o saber que lhe faz falta. É que os nossos concorrentes são, e até sabem vir cá buscar os recursos que formamos... É preciso deitar muito dinheiro por cima deste problema, porque investigar e desenvolver sai "caro" mas esse é apenas um detalhe. O problema é que a generalidade dos nossos empresários (em boa verdade toda a nossa sociedade) está focada apenas no curto prazo e a I&D tem resultados no longo e muito longo prazo. Veja-se o exemplo da Bial que, depois de investir muitos milhares de € durante anos a fio, conseguiu introduzir no mercado 1 (um) medicamento inovador. O retorno desta estratégia de investimento é realmente mais demorado mas tem a enorme vantagem de ser muito mais resiliente, não só pelo maior valor acrescentado, mas também pela dinâmica de verdadeira inovação que cria. É o mesmo que dizer que não vamos esperar tantos anos pelo próximo medicamento totalmente desenvolvido pela Bial.

 

Qualidade da Gestão: Os nossos Gestores, salvo honrosas excepções, ainda vivem no tempo do condicionamento industrial. É confrangedor o número de empresas em que a gestão se limita à tesouraria, aos stocks e encomendas e onde, à falta de investimento em I&D se junta o desconhecimento ou a não implementação de ferramentas que já têm 70 anos de aplicação um pouco por todo o mundo... Em demasiadas fábricas termos como Kanban, Kaizen, 5S ou Lean Manufacturing são confundidos com nomes de doenças ou marcas de shampoo. Ou então são olimpicamente ignorados porque são coisas que dão muito trabalho e demoram muito até dar resultados visíveis. Puxando a brasa à minha garoupa (cada um escolhe o peixe que quer, tá?), a Segurança Industrial (Segurança e Saúde no Trabalho, Segurança contra Incêndio, etc.) é a última coisa que vem à cabeça da maior parte e, mesmo assim, é visto como um custo e não um investimento na sustentabilidade do negócio.

 

Há alguns anos andava por aí uma T-shirt com a frase "Portuguese do it better". Sabemos que é preciso que tenham condições para tal e isso implica mudar corajosamente e definitivamente muitas estruturas, que não suportam o peso de uma geração tão promissora.

O fino gelo da meritocracia.pt

Em Portugal, meritocracia é pouco mais que um chavão.

Para mim, homem da lógica e matemática, esta talvez tenha sido uma das mais duras lições da vida. Afinal, ser bom, dos melhores, não era o caminho garantido para o sucesso profissional. Quando ouvi pela primeira vez o ditado "vale mais cair em graça que ser engraçado" fiquei apenas enfadado. Que parvoíce! Como é que ser bem visto por alguém pode valer mais que ser competente? Estão a chamar mentirosos a quem? Aos meus pais?! Aos meus professores?! Onde é que já se viu isso? Em Portugal.

Pois, é neste pacífico cantinho da Europa, com a melhor comida do mundo e um povo fantástico, quem pode escolher com quem "vai a jogo" prefere os conhecidos aos conhecimentos. E meus amigos, este é um dos maiores contribuintes para o atraso de Portugal e para a falta de "músculo" da nossa economia  (há mais uns quantos que ficam para outros posts...). É fonte de desigualdade, gera desmotivação, reduz a produtividade (duplamente!), tolda-nos a competitividade e custa-nos imenso dinheiro em impostos, bens e serviços mais caros e de pior qualidade.

Por cá ficou célebre a frase do ilustre Alumni do IST, Engº António Guterres "No jobs for the boys". Boa intenção mas completamente trucidada pelo "aparelho" do PS que tratou de manter uma tradição de longa data e trocar gente em toda a Administração Pública de acordo com a cor do cartão de militante, independentemente da competência. Não fosse a "cunha" a maior instituição do país: desde livrar uns moços da guerra do ultramar (contado pelo meu pai, que para lá partiu vendo-os ficar...), para entrar para uma empresa, o grupo de escuteiros ou na escola que nunca tem vaga.

Mas para que o Estado não fique só, nas empresas privadas, acontece geralmente o mesmo. Promove-se a competência e premeia-se o melhor desempenho por coincidência e não em verdadeira consciência. Há muitas excepções de gente excelente que é devidamente reconhecida e valorizada. Mas são infelizmente demasiados os casos em que conta mais o "networking", o "marketing pessoal" e outros conceitos abstractos com uma tradução popular bem portuguesa: cunha. Temos mesmo dificuldade em separar o Cognac do trabalho, as amizades das relações profissionais. Os exemplos vêm de cima: políticos cujo primeiro emprego é Administrador de uma empresa (de um amigo), ex-ministros, secretários de estado e directores gerais que passam para a Direcção de empresas que tutelavam (e vice-versa), nomeados pelos administradores representando accionistas de referência (bancos, o próprio estado) com interesses no sector, em negócios pouco claros e favores muito evidentes, com as consequências que todos conhecemos e ainda estamos a pagar (BES, PT, EDP, ANA, etc.).

Não admira pois que tantos jovens qualificados tenham abandonado o país em busca de trabalho e melhores condições de vida. E são extremamente apreciados quando são efectivamente bons profissionais. Apreciados pela sua competência, reconhecidos e devidamente recompensados! A maior parte deles não vai voltar. Pelo menos enquanto a alternativa seja voltar à aparente incapacidade nacional de valorizar o talento.

Jogando sempre à defesa, escolhendo os amigos ou aqueles a quem se deve um favor, só por acaso se tem as pessoas certas nos lugares certos e muito dificilmente se consegue ter uma equipa competitiva e resiliente. Este é um dos factores a contribuir para a fraca capacidade de internacionalização das nossas empresas, incapazes de competir com quem leva a meritocracia a sério. Pior ainda quando temos um mercado pequeno e com fraco poder de compra, o que significa que estar limitado ao nosso mercado é estar condenado à partida a ser pequeno e vulnerável a ataques de fora. É certo que exportamos muitos bens e serviços mas temos muito pouca presença de empresas nacionais noutras latitudes. No entanto, todos conhecemos nomes de grandes empresas que começaram em pequenos países mas que se espalharam pelo mundo como a Carlsberg (Dinamarca), H&M, Securitas, IKEA e Spotify (Suécia), AB InBev (dona da Stella Artois e da Budweiser, Bélgica) para nomear apenas alguns casos de países com população/dimensão semelhante à nossa e sem recursos naturais significativos.

Valorizar o talento não é apenas pagar para o ter ao seu serviço. Valorizar o talento é dar condições para que o mesmo se revele e desenvolva. É promover a criatividade e a imaginação que são o pai e a mãe da inovação. É apoiar, suportar e encorajar a tentar sem medo de falhar pois errando também se aprende. Mas nem todos os líderes são como o capitão da Selecção Portuguesa de Futebol: nem todos têm a coragem de dizer a um elemento da equipa "tu bates (fazes) bem, se falhares que se fo... Vai!". Um símbolo do talento, que não conhece fronteiras e é reconhecido até pelos adversários, que o aplaudem de pé(!) e demonstra o que é liderança. O outro "bateu" realmente bem e, dois jogos mais tarde, CR7 levantou o "caneco"!

 

O fino gelo da educação.pt

Como pai de 3, a educação e o ensino são temas mais que queridos: obrigatórios.

Tive a sorte de ter vaga na CEBE para o meu mais velho. Ele próprio se encarregou de inscrever as irmãs, com uma proficiência espantosa para um cachopo de 4 e 7 anitos, respectivamente aquando da chegada da mana do meio e da caçula. Um ensino em que se cultivam os afectos, a proximidade, a criatividade e se respeita o espaço e tempo que cada um necessita para se desenvolver. E mesmo assim: os programas foram diferentes para cada um deles, mudando ao sabor do vento Ministerial que, como se sabe, é o mais terrível dos ventos que assola o nosso Portugal! No ensino do Inglês variou de facultativo até obrigatório nos 4 anos para voltar dois passitos atrás... Até que, acabado o quarto ano, é necessário levá-los para uma "escola de crescidos".

E os dois que já deixaram o ninho da CEBE e voaram pelo 2º Ciclo, encontrando-se no meio do 3º Ciclo e quase no fim do secundário, já têm muitas histórias para contar... Professores excelentes, fantásticos, entusiasmantes! E outros que simplesmente não deviam estar à frente de uma turma. Já dizia uma sábia amiga que "Padre, médico e professor não são profissões, são vocações".

O problema é que o sistema é cego, surdo e mudo, contando com a inacção de muitos ministros e a benção dos múltiplos sindicatos e da todo poderosa FENPROF, para prejuízo de todos: alunos, pais, professores e, no final, do futuro deste país. Vocação? 9 Anos, 4 Meses e 2 Dias! Os bons, excelentes, alguns mesmo excepcionais professores serem recompensados? 9, 4, 2! Os maus professores serem afastados? 9, 4, 2! Professores que não estão em condições de aturar 28 marmanjos na puberdade, seja porque estão doentes, incapacitados temporária ou definitivamente, ou porque têm que se levantar de madrugada e fazer 120km para cada lado para vir trabalhar (e ficado com o pior horário porque não pertencem ao Quadro da Escola e são os últimos a escolher...) mas que são obrigados a leccionar pelo Ministério porque é só para isso que podem servir (ERRO! Há tanta coisa útil que um professor pode fazer numa escola sem ser dar aulas, desde tutorias individuais, aulas de recuperação para pequenos grupos até ateliers avançados, clubes de línguas, matemática, robótica...)? Já sabemos a resposta...

O que interessa é o tempo de serviço! Sim, talvez para os 23 sindicatos (sim, vinte e três) e para os muitos sindicalistas, alguns há tempo demais (não deveria ter um limite?) longe das salas de aula, seja o mais importante. Para pais e alunos, nem por isso. Não é o tempo que faz um professor ser melhor, ainda que às vezes ajude. Se esta luta serve para alguma coisa é para mostrar a completa estupidez que é ter como critério (quase) exclusivo de progressão na carreira o tempo. A desculpa que qualquer outro critério é subjectivo não tem desculpa, de tão esfarrapada que é. É como vestir um sobretudo para ir para a praia em Agosto: é melhor que ir nu mas não é adequado. Dá trabalho procurar uma solução adequada (se bem que já há quem esteja à nossa frente e nos deixe copiar, o que, neste caso, nem é ser cábula...) mas é muito melhor do que ficar agarrado ao obviamente errado só porque é o que está instituído há muito... tempo. Já nem os militares funcionam assim. Mas o nosso Estado continua a viver no Séc. XVIII. Com e-governance, e-facturas, e-merdas para fazer a interface com o utilizador/contribuinte mas "por dentro" com uma organização e procedimentos do mais antiquado que pode haver.

Não é apenas a progressão na carreira: a autonomia cada vez mais reduzida das escolas, os mega-agrupamentos que só serviram para reduzir pessoal custos no curto prazo mas que custam fortunas durante décadas... A minha filha do meio teve este ano um professor de Geografia substituto que se revelou excelente, compensando os quase dois meses sem professor. No entanto a escola não o pode reter, ainda que a pessoa que ele substituiu vá, infelizmente, permanecer de baixa. O pobre vai ter que mudar outra vez, adaptar-se outra vez, e, caso não desmotive entretanto, ser excepcional outra vez sem ter outro retorno que não o orgulho e a alegria de ver alunos interessados e com uma aprendizagem a condizer! Sorte dos garotos que o apanharem para o ano.

Esta mudança é mais que necessária, urgente. Mas é necessária coragem para enfrentar tudo e todos os interesses instalados. Não dá votos e até poderá tirar alguns mas é absolutamente necessária para que deixemos de ter alunos do Séc. XXI com professores do Séc. XX numa escola do Séc. XIX!

WP_20180521_004.jpg  Roger Waters@Altice Arena, 21-05-2018

 

Quebrar o gelo ou deixar que ele se quebre

Esta semana falou-se muito de eutanásia e suicidio assistido. O primeiro comentário é o do sentido de oportunidade: não há nada mais importante para os deputados da nação discutirem neste momento? Que tal medidas mais eficazes no combate à corrupção? Fica a dica: prioridades.

Prós e contras. Acabar com o sofrimento, morrer com dignidade, respeitar a liberdade individual, defender a vida humana, não obrigar os profissionais de saúde a matar...

Há duas coisas que me incomodam: a abertura da possibilidade para que alguma entidade ou alguém deixe de fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar um ser humano e a questão da dignidade. A primeira é óbvia e a segunda incomoda-me porque parece que se dá mais valor à forma como se morre do que à forma como se vive. Não ter acesso a bons cuidados de saúde ainda vá que não vá, mas a morte quer-se digna, limpa e de preferência indolor. Indigno é morrer numa lixeira à procura de comida. O resto é conversa de quem já tem tanto que até se dá ao luxo de se preocupar em controlar a própria morte...Talvez eu esteja habituado a pensar que temos que cuidar bem das pessoas e melhorar a sua qualidade de vida durante todo o período da mesma.

O nosso corpo é uma máquina (biomáquina, se preferirem) e como todas as máquinas vai sofrendo desgaste, avarias, leva algumas reparações e, há um dia, em que deixa de funcionar. Sempre assim foi e será. Ninguém gosta do desconforto da doença, da dor, dos tratamentos que às vezes parecem piores que a cura. E esse é o ponto crítico. Até que ponto o sofrimento é suportável? Onde podemos e devemos colocar o limite? E em que casos? E quando os cuidados paliativos não limitam o sofrimento? Ninguém gosta nem quer sofrer. Eu se o puder evitar não pensarei duas vezes...

A minha querida mãe sofre da doença de Alzheimer. Há demasiado tempo. Tanto tempo que tudo tem que ser feito por ela, desde preencher a declaração do IRS (é das coisas mais estranhas do mundo uma pessoa estar tão debilitada mas ter na mesma que preencher a declaraçãozinha até vesti-la e dar-lhe de comer. Vê-la assim é uma dor tão grande que às vezes nem consigo ir visitá-la ao lar. Já não anda nem fala. As reacções são cada vez menos e nem ao nome dos netos já esboça o sorriso que era costume. Parece que se vai afundando, lentamente, sendo cada vez mais difícil chegar até ela. Não sei se sofre. Penso que não, não parece ter dores e por certo não se apercebe já da sua própria condição de dependência. Nós, todos os que a amamos, sofremos bastante.

E no entanto, se tivesse deixado escrito que queria morrer se um dia estivesse assim, eu pediria desculpa e desobedeceria uma vez mais. É que quando lhe dou um beijo e lhe peço um de volta, ela, por enquanto, ainda me beija como sempre o fez desde que me lembro de existir.

Thin Ice

"If you should go skating
On the thin ice of modern life

Dragging behind you the silent reproach
Of a million tear stained eyes

Don't be surprised, when a crack in the ice
Appears under your feet
You slip out of your depth and out of your mind
With your fear flowing out behind you
As you claw the thin ice"

Roger Waters, The Thin Ice, The Wall, London, 1979

 

Começo com o excerto da música que dá nome a este meu blog. Sim, sou grande apreciador da música e da poesia dos Pink Floyd, mas não foi por isso que escolhi este nome. Aos 45 anos, casado, com 3 filhos e um trabalho, sinto-me muitas vezes a patinar no gelo fino da vida moderna.

Porque já não sou um miúdo, porque tive e tenho a sorte de contactar com muitas realidades diferentes da minha, porque tenho um sentido crítico (demasiado?) apurado e sempre gostei de pensar pela minha cabeça, resolvi começar a escrever e a partilhar o que vou vendo, sentindo e intuindo acerca deste tempo em que vivemos, da nossa sociedade (portuguesa e mundial), das nossas empresas, das nosssas conquistas e dos nossos desafios. É natural que partilhe coisas muito técnicas porque sou um apaixonado por automóveis, máquinas, tecnologia, ambiente, gestão da qualidade e pela segurança industrial.

O gelo da vida moderna é tão fino que não sei como nem quando vou actualizar este blog. É literalmente quando conseguir e tiver algo que considere importante dizer. Se comentarem os posts, lerei os mesmo mas não prometo responder a nenhum: a minha mãe ensinou-me a não prometer para não faltar...

 

E para que ninguém venha ao engano fica um pequeno "disclaimer":

As opiniões expressas neste blog são totalmente independentes de qualquer corrente política, partidária, ideológica ou similar. Prezo demasiado a liberdade para dizer ou deixar de dizer alguma coisa só para ser politicamente correcto, "mainstream" ou outra porcaria do género. Qualquer aproveitamento das palavras aqui escritas é total responsabilidade dos respectivos aproveitadores. Escrevo, por opção, de acordo com a antiga ortografia. Poderei fazer posts em inglês, não por snobeira saloia mas porque às vezes há temas em que é mais fácil.

Agora a parte pior:

Sou católico e grande admirador do Papa Francisco. Posso como tal ser bastante crítico da Igreja, do Catolicismo e da religião em geral.

Sou do Benfica e isso me envaidece desde que me lembro de existir, apesar de só me ter feito sócio há poucos anos. Lembro que só os consócios e co-simpatizantes do Glorioso podem dizer mal do mesmo (nem que seja da equipa de berlinde), sob pena de desprezo absoluto por um período nunca inferior a uma eternidade.

Sou licenciado em Engª Mecânica na maior escola Portuguesa de engenharia, ciência e tecnologia, o Instituto Superior Técnico. Uma vez mais, só os Alumni do IST podem referir-se de forma menos positiva ao mesmo.

Ainda ouço CDs, escolho carros pela fiabilidade, robustez e prestações e tenho aspirações a dominar decentemente a minha Nikon. Às vezes, quando não me dá para escrever em blogs, massacro os vizinhos com uma Fender Stratocaster.

 

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